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Bioquímica

 

AS PROTEÍNAS


Dentre todas as moléculas orgânicas, as proteínas estão entre as mais abundantes e as de maior importância, dada a sua grande diversidade estrutural e as suas diversas funções biológicas. Neste artigo vamos tratar de alguns aspectos gerais das proteínas, sua estrutura, sua composição, sua diversidade e suas funções biológicas. Antes porém, para relevarmos a importância destas moléculas, vamos fazer um pequeno parêntese sobre as inter-relações e a interdependência entre a molécula de DNA e as proteínas.


Já vimos que as proteínas são a expressão da informação genética contida no DNA, a dupla hélice formada pela seqüência de nucleotídeos. Da mesma maneira vimos também que o funcionamento do DNA (replicação, transcrição e tradução) depende de uma série de enzimas, que são proteínas. Assim o DNA para se desenrolar, replicar, e formar duas novas moléculas, precisa da ação de várias enzimas como as DNA-polimerases, a DNA-helicase e a DNA-ligase. Durante a formação do RNA e até a tradução, que vai levar a formação da cadeia polipeptídica (estrutura primária das proteínas) também atuam enzimas. Na transcrição atua a RNA-polimerase; na fase pós-transcrição, quando do RNA são eliminados os íntrons, temos a atuação de enzimas nucleásicas. Durante a tradução atuam transferases que fazem a ligação entre o RNAt e os aminoácidos específicos para cada trinca de nucleotídeos do RNAm. Concluindo, então, podemos dizer que todo o mecanismo de transferência da informação genética em proteínas, depende totalmente da ação das próprias proteínas.


Qual a composição das proteínas?


Quando isolamos qualquer gênero de proteínas na forma de cristais, podemos constatar que tais moléculas, sem exceção, são formadas por carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio; e na sua maioria por enxofre também. Outros elementos, como ferro, zinco, fósforo e cobre podem estar presentes. Pela hidrólise ácida sabemos que as proteínas são formadas por sub-unidades de baixo peso molecular denominadas de a -aminoácidos. Todas as moléculas de aminoácidos contém pelo menos um grupamento carboxílico e um a -aminogrupo. O que diferencia um aminoácido do outro, no entanto, é o grupamento R. Assim no esquema abaixo temos um tetrapeptídeo (Glicilalanilserilfenilalanina) formado por quatro aminoácidos, cujo nome se refere ao grupamento R de cada aminoácido:

Todas as proteínas existentes são formadas pela combinação de 20 aminoácidos diferentes. Os aminoácidos estão ligados de maneira covalente, formando polímeros não-ramificados, por meio de ligações amídicas, denominadas ligações peptídicas. As ligações peptídicas se dão pela eliminação dos elementos da água do grupo carboxílico de um aminoácido, o qual vai se ligar a um a -aminogrupo do aminoácido subseqüente. Desta maneira são formadas as cadeias polipeptídicas, que podem apresentar centenas de aminoácidos. Uma proteína pode conter apenas uma cadeia, outras podem conter mais de uma cadeia com estrutura, peso molecular e composição definidos. Hoje são reconhecidas de 1010 a 1012 proteínas.


As proteínas podem ser divididas em duas classes principais de acordo com sua composição: proteínas simples e proteínas conjugadas. As proteínas simples são compostas apenas por aminoácidos; elas não apresentam nenhum outro composto orgânico ou inorgânico. As proteínas conjugadas, como o nome indica, são formadas além de aminoácidos, por uma outra porção, orgânica ou inorgânica, a qual recebe o nome de grupo prostético. Assim podemos ter nucleoproteínas (ácidos nucleicos como grupo prostético), glicoproteínas (lipídeos como grupo prostético), fosfoproteínas, metaloproteínas e glicoproteínas.


Os pesos moleculares das proteínas podem variar de 5 mil até 1 milhão mais ou menos. Isto pode depender do tamanho da cadeia polipeptídica, ou do fato da proteína ser formada por uma ou mais cadeias.
Proteína Peso molecular Número de cadeias
Insulina (bovina) 5.700 2
Lisozima (clara do ovo) 13.900 1
Mioglobina 16.900 1
b -Lactoglobulina 35.000 2
Hemoglobina 64.500 4
Tripofano-sintetase 159.000 4
Glicogênio-fosforilase 370.000 4
Glutamina-sintetase 592.000 12
Vírus do mosaico do fumo 40.000.000 2130

Como as proteínas estão estruturadas?


Já sabemos que quando da tradução, ou síntese protéica, forma-se a cadeia polipeptídica, seqüência das moléculas de aminoácidos, que é a estrutura primária das proteínas. No entanto muitas proteínas, após a formação desta estrutura primária se espiralam e se enovelam, num arranjo ou conformação tridimensional. De acordo com esta conformação podemos, então, identificar duas classes principais de proteínas, que são as fibrosas e as globulares.


As proteínas fibrosas são insolúveis em água e são fisicamente resistentes; tais proteínas são formadas por cadeias polipeptídicas paralelas dispostas em longas fibras ou lâminas. Como exemplo de proteínas fibrosas temos o colágeno (tendões e osso), a queratina (cabelo, pele, chifre, unha), e a elastina (tecido conjuntivo elástico).

queratina do cabelo (acima) e da lã. (Lehninger, A. L. Bioquímica)


As proteínas globulares são formadas por cadeias polipeptídicas que se dobram adqüirindo a forma esférica ou globular. Tais proteínas, em sua maioria, são solúveis em água. As proteínas globulares tem uma função dinâmica e incluem a maioria das enzimas, os anticorpos, muitos hormônios e proteínas transportadoras, como a albumina sérica e hemoglobina.

Hemoglobina. (Lehninger, A. L. Bioquímica)


Proteínas como a miosina e o fibrinogênio apresentam tanto características de proteínas fibrosas, pois são formadas por cadeias paralelas; como de proteínas globulares, pois são solúveis em água.


A Função Biológica das Proteínas

Compreender a diversidade das proteínas e sua funcionalidade biológica é de grande importância para quase todos os campos da biologia. Assim, podemos constatar que em todos os níveis de organização, do molecular ao indivídual, as proteínas estão presentes, participando das principais reações bioquímicas, como a respiração celular, a fotossíntese, e a síntese e funcionamento do DNA. As proteínas formam os mais diversos hormônios, participam de processos fisiológicos como a digestão (enzimas), circulação (hemoglobina), contração e distensão muscular, e muito mais.
A classificação das proteínas de acordo com suas funções biológicas pode ser resumida na tabela abaixo.
Classificação das proteínas de acordo com suas funções biológicas
Lehninger, A. L. Bioquímica (Edgard Blücher, 1980)



Tipo e exemplo Ocorrência ou função

Enzimas
Hexoquinase Fosforila a glucose
Lactato-desidrogenase Desidrogena o lactato
Citocromo c transfere elétrons
Amilase hidrolisam o amido
Proteases (tripsina, pepsina, quimiotripsina) hidrólise de proteínas
Hialuronidases enzima acrossômica que quebra os polissacarídeos do manto do óvulo.
Hidrogenases catalisam reações de oxidação e redução
Helicase Desenrola a dupla hélice de DNA
RNA-polimerase Transcreve o RNA
DNA-polimerase Replica e repara o DNA

Proteína de armazenamento
Ovalbumina poteína da clara do ovo
Ferritina Armazenamento de ferro no baço
Gliadina Proteína da semente do trigo


Proteínas transportadoras
Hemoglobina Transporta O2 no sangue dos vertebrados
Hemocianina Transporta O2 no sangue de alguns invertebrados
Mioglobina Transporta O2 no músculo dos vertebrados
Albumina sérica Transporta ácidos graxos no sangue

Proteínas contráteis
Miosina Filamentos espessos na miofibrila
Actina Filamentos delgados na miofibrila
Dineina Cílios e flagelos

Proteínas protetoras do sangue de vertebrados
Anticorpos Forma complexos com proteínas estranhas
Complemento Formacomplexos com alguns sistemas antígeno-anticorpo
Fibrinogênio Precursor da fibrina na coagulação do sangue
Trombina Componente do mecanismo de coagulação

Toxinas
Toxina de Clostridium botulinum Causa o botulismo (toxemia alimentar)
Venenos de cobra Enzimas que hidrolisam fosfoglicerídeos
Ricina Proteína tóxicada semente de mamona

Hormônios
Insulina Regula o metabolimo da glicose
Hormônio adrenocorticotrópico Regula a síntese de corticosteróide
Hormônio do crescimento Estimula o crescimento dos ossos

Proteínas estruturais
Proteínas de revestimento dos vírus Bainha que envolve o ácido nucleico
Glicoproteínas Paredes e revestimento celulares
a -Queratina Pele, penas, unhas e casco
Esclerotina Exoesqueleto de insetos
Fibroína Seda de casulos, teias de aranha
Colágeno Tecido conjuntivo fibroso (tendões, osso e cartilagens)
Elastina tecido conjuntivo elástico
Mucoproteínas Secreções mucosas, fluído sinovial


A Desnaturação das Proteínas

Grande parte das proteínas mantém a sua atividade biológica dentro de um limite estreito de temperatura e pH. Desta maneira, proteínas globulares quando expostas a valores extremos de pH ou de temperatura (acima de 60oC), sofrem o que chamamos de desnaturação, que consiste no desenovelamento da estrutura terciária, ou quaternária, dobrada e retorcida na forma globular. Com esse desenovelamento as proteínas perdem a sua funcionalidade biológica; no caso das enzimas, estas não mais funcionarão como catalisadoras de reações químicas. Neste processo, entretanto, a estrutura primária das proteínas fica preservada. O processo de desnaturação ou desenovelamento das proteínas não é irreversível, pelo menos para muitos casos onde foi observada uma renaturação, após a desnaturação, em tubo de ensaio.


 
 
   

 

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