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Microbiologia

 

LABORATÓRIO DE MICROBIOLOGIA

O PAPEL DO LABORATÓRIO DE MICROBIOLOGIA
E DOS MICROBIOLOGISTAS

O laboratório de Microbiologia desempenha um papel fundamental para o sucesso de um programa de controle de infecção hospitalar. A introdução de novas metodologias na prática laboratorial nas últimas décadas, a expansão da lista de patógenos nosocomias relevantes e o crescente cenário de microrganismos multi-resitentes tem tornado a interface entre estas duas áreas mais ampla e complexa.


Dentre as atribuições do laboratório de Microbiologia Clínica podemos destacar:


1. Isolamento rápido e identificação acurada de microrganismo envolvido em processo infeccioso.
2. Determinação do perfil de sensibilidade aos antimicrobianos.
3. Vigilância de microrganismos considerados "problema" dentro de uma Instituição..
4. Fornecimento de dados epidemiológicos dos diferentes agentes etiológicos de infecção hospitalar e perfil de sensibilidade.
5. Suporte microbiológico na investigação de surto e realização de estudos de tipagem, se necessários, para determinar similaridade dos isolados
6. Participação ativa na equipe de especialistas em infecção hospitalar, proporcionando correlação clínica laboratorial adequada
7. Educação continuada em microbiologia para residentes e especialistas em infecção hospitalar.
8. Armazenamento de cepas de interesse local para estudos posteriores.


Em relação aos itens 1,2 e 3 algumas considerações são importantes para que o especialista em infecção hospitalar possa interpretar corretamente os resultados gerados pelo laboratório.


Isolamento rápido e identificação acurada de microrganismo envolvido em processo infeccioso.


A coleta e o transporte adequados dos diferentes materiais biológicos são fatores fundamentais para o sucesso na recuperação de um determinado agente assim como para uma correlação clínica adequada. Não existe em nenhuma outra área laboratorial tamanha diversidade quanto aos espécimes clínicos passíveis de serem cultivados, além da extensa lista de possibilidades etiológicas.


Para o diagnóstico adequado de um processo infeccioso, a seleção mais apropriada de um espécime biológico envolve o conhecimento prévio da história natural da infecção em questão. Um laboratório de microbiologia altamente equipado e capacitado, com pessoal especializado, pouco contribuirá para o diagnóstico de uma doença infecciosa se não houver qualidade durante todo o processo de seleção, coleta e transporte do espécime biológico.
O impacto negativo de uma coleta inadequada quanto ao desperdício de recursos utilizados e instituição de tratamentos inadequados não deve ser subestimado, além de comprometer diretamente a qualidade dos resultados gerados pela CCIH.


Ë de responsabilidade do laboratório a realização de manual de coleta e transporte dos diferentes materiais biológicos, sendo que laboratório e CCIH são parceiros na divulgação e supervisão destas recomendações junto ao corpo clínico.


A identificação ao nível do gênero e espécie deve ser realizada nos microrganismos considerados verdadeiros patógenos. Informações como "Klebsiella spp" tem pouco valor do ponto de vista epidemiológico e podem obscurecer a detecção precoce de um surto de determinada espécie.


Vários sistemas para isolamento e identificação de microrganismos estão disponíveis, tanto automatizados, semi-automatizados ou manuais e podem ser utilizados de acordo com as necessidades individuais de cada laboratório, além de métodos imunológicos e moleculares e é importante que a CCIH tenha informação sobre a sensibilidade e especificidade das metodologias empregadas localmente no diagnóstico das diferentes infecções.
Determinação do perfil de sensibilidade aos antimicrobianos.


Constitui atribuição fundamental do laboratório, cujo objetivo fundamental é auxiliar na escolha do antimicrobiano mais adequado, contribuindo para sucesso terapêutico. Deve ser realizado somente nos microrganismos considerados verdadeiros patógenos e não em flora normal ou contaminantes. Além disso, os dados acumulados de resistência permitem a monitorização do perfil de sensibilidade de microrganismos de interesse, funcionando como um sistema de alerta precoce de emergência de multi-resistência ou perfis não usuais.


Existem várias metodologias bem padronizadas que podem ser empregadas como:
· métodos quantitativos, que determinam a concentração inibitória mínima (microdiluiçao, macrodiluicao, E-test);
· métodos qualitativos, que informam a categoria do isolado (disco difusão); e
· métodos automatizados.


A definição de utilização de determinada metodologia pelo laboratório envolve questões relacionadas aos custos, facilidade de execução, acurácia do teste e preferências individuais. Todas possuem vantagens e limitações que devem ser conhecidas e entendidas pelos especialistas em infecção hospitalar.


A detecção acurada da resistência de certos organismos, como por exemplo, Estafilococos resistentes a oxacilina, pode ser problemática se o laboratório não realizar as modificações necessárias nas rotinas destes testes.


A definição do painel de drogas a serem testadas em um microrganismo especifico é uma decisão que envolve o laboratório de Microbiologia, a farmácia, o infectologista e o especialista em infecção hospitalar. São levadas em consideração as metodologias disponíveis, a prevalência de resistência na instituição e disponibilidade local dos antimicrobianos testados.


Em hospitais onde o controle de antimicrobianos de amplo espectro é mais complicado, a utilização do antibiograma seletivo pode ser bastante útil. Neste caso, o painel de drogas é testado de rotina, mas a informação dos resultados de determinados antibióticos é restrita ao corpo clínico mas acessível a CCIH. Por exemplo, no caso de estafilococo sensível a oxacilina, o resultado de sensibilidade da Vancomicina pode ser restrito numa tentativa de minimizar o uso irracional de antibióticos.


Outro aspecto fundamental é a atualização contínua dos pontos de corte utilizados para classificar os isolados corretamente. Anualmente, diferentes organizações como por exemplo, o NCCLS (National Committee for Clinical Laboratory Standards), publicam documento contendo revisão de pontos de corte utilizados de diversas drogas, incluindo novos antibióticos, para diferentes microrganismos para os quais o teste está padronizado e o microbiologista deve informar qualquer modificação a equipe de CIH.

Vigilância de Microrganismos "Problemas"

Nas últimas duas décadas, a incidência de infecções nosocomias causadas por microrganismos multi-resistentes vem sendo relatadas mundialmente trazendo um desafio a mais para todos os profissionais de saúde envolvidos no cuidado ao paciente. O laboratório de Microbiologia deve estar atento e capacitado para detectar e comunicar precoce e corretamente estes patógenos, possibilitando a introdução de terapêutica adequada, além da instituição de medidas de controle para prevenir disseminação intra-hospitalar. Dentre estes patógenos podemos destacar o Enterococo resistente aos glicopeptideos, K.pneumoniae e E.coli produtoras de ESBL, Pseudomonas aeruginosa e Acinetobacter spp. multi-resistentes, Estafilococos resistentes a oxacilina e mais recentemente, estafilococos com sensibilidade diminuída aos glicopeptideos.


A detecção de pacientes colonizados precocemente constitui importante estratégia para minimizar a disseminação nosocomial destes patógenos. Entretanto estes programas de vigilância podem exigir esforços e recursos excepcionais do laboratório de microbiologia.
Desta forma, laboratório e CCIH devem discutir conjuntamente as estratégias a serem implementadas, definindo quais são os microrganismos problema dentro de uma instituição, sua real prevalência , quais demandam ações prioritárias, qual o universo de pacientes incluídos, a estimativa do número de culturas, freqüência de coleta, duração da vigilância, impacto na rotina e recursos financeiros disponíveis. Todas esta informações são cruciais para permitir uma avaliação prévia da viabilidade do programa e planejamento adequado pelo laboratório.


Vários meios de culturas seletivos podem ser utilizados para otimizar os recursos laboratoriais durante programas de vigilância, além de métodos alternativos para agilizar identificação e determinação de sensibilidade.


Finalmente, toda informação gerada deve ser disponibilizada o mais rápido possível a CCIH e esta tem também a responsabilidade de reavaliar continuamente os resultados e validade do programa partilhando as informações com o laboratório.


São muitos os fatores no cenário laboratorial que interferem no trabalho da CCIH e a comunicação freqüente e contínua entre estas duas áreas é crucial para o planejamento e execução bem sucedida das estratégias de um programa de controle de infecção hospitalar.


Bibliografia Consultada

1. Kollef M,NiedermanM. Antimicrobial resistance in ICU:The time for action is now. Crit Care Med 2001;29:N63-N141. 2. McGowan JE,Metchock BG Basic Microbiology Support for hospital Epidemiology. Infect Control Hosp Epidemiol 1996;17:298-303.
3. McGowan JE,Weistein RA The role of the Laboratory in Control of Nosocomial Infection in Hospital Infections, Bennett, fourth edition,Lippincott-Raven 1998.
4. Miller JM ,Holmes HT Specimen Collection, Transport and Storage IN Manual of Clinical Microbiology Murray P(edit chief) 7thedit,1999 American Society for Microbiology.
5. Peterson LR,Hamilton J,Baron J et al Role of Microbiology Laboratories in the Management and Control of Infectious Idseases and the Delivery of Healh Care. Clin Infect Dis 2001;32 :605-610.
6. PfallerMA,Herwaldt LA. The clinical microbiology laboratory and the infection control : emerging pathogens,antimicrobial resistance and new technology.Clin Infect Dis 1997;25:858-70.
7. Rice LB. Antimicrobial Resistance : Understanding therapeutic choices. Pharmacotherapy 1999;19(8)111S-137S.
8. Wilson MP,Spencer RC. Laboratory role in the management of hospital acquired infections. J Hosp Infec 1999; 42 : 1-6.

Dra. Gisele Duboc - Médica assistente do Laboratório de Microbiologia
Divisão do Laboratório Central- HC-FMUSP

 
 
   

 

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